Governo quer regime tributário especial para terras raras
Por: Lu Aiko Otta e Giordanna Neves
Fonte: Valor Econômico
Para estimular o refino de minerais críticos no Brasil, o governo federal vai propor
a criação de um regime especial no qual as empresas receberão créditos
tributários crescentes conforme a agregação de valor. Além disso, a venda da
Serra Verde, mina de terras raras situada em Minaçu (GO) para uma empresa dos
Estados Unidos - uma transação de US$ 2,8 bilhões anunciada em abril -, está em
análise pelo governo federal.
“Eu não descarto a hipótese de ser questionado”, disse ao Valor o novo ministro
do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, na última
quinta-feira, véspera da entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia.
O modelo em formulação para as terras raras, materiais usados na tecnologia de
ponta de áreas como defesa e comunicação, é parecido com o utilizado no
programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), que incentiva a produção de
automóveis sustentáveis por meio da concessão de créditos financeiros usados
para abatimento de impostos. Desde sua adoção, montadoras anunciaram
investimentos no Brasil que deverão superar os R$ 100 bilhões até 2030.
O governo pretende controlar os investimentos estrangeiros em minerais críticos
e terras raras e poderá ainda restringir a exportação desses produtos. Essas são
contribuições que o Executivo vai entregar ao deputado federal Arnaldo Jardim
(Cidadania-SP), que relata na Câmara um projeto de lei que institui a Política
Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Ao comentar o acordo comercial com os europeus, que entrou em vigor
provisoriamente no dia 1º de maio e criou uma área de livre comércio de 720
milhões de consumidores e Produto Interno Bruto (PIB) superior a US$ 22 trilhões,
o ministro disse que deverá elevar as exportações brasileiras em 2,65% - um ano
após o início do tratado. Somado com dois acordos já assinados e recém-
encaminhados ao Congresso para aprovação, com Singapura e Efta (Área de Livre
Comércio da Europa), o impacto é estimado em R$ 67 bilhões ao ano.
A pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a equipe de Elias Rosa avalia as
oportunidades de aumento do comércio nos setores que integram a Nova
Indústria Brasil (NIB), política industrial do governo: agroindústria, saúde,
infraestrutura, digitalização da indústria, bioeconomia e tecnologia de defesa
nacional.
O risco de adoção de novas medidas protecionistas por parte dos Estados Unidos
a partir das investigações com base na Seção 301 da Lei de Comércio, não deve
ser encarada como dificuldade inesperada, defendeu. Na sua visão, esse tem sido
o “modus operandi” dos Estados Unidos. O intuito é prosseguir no diálogo, tanto
que Lula já solicitou uma audiência com o presidente americano, Donald Trump.
O encontro deveria ter ocorrido no início do ano, mas foi adiado em função da
guerra no Irã.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) é
contrário à revogação da taxa das blusinhas. “A nossa posição é de manutenção
para corrigir uma assimetria que existe entre o varejo brasileiro e a indústria têxtil,
calçadista, a indústria da moda”, diz. Essa, porém, é uma questão sobre a qual
ainda não há uma orientação de governo. A seguir, os principais trechos da
entrevista:
Valor: Qual a estratégia agora, com a vigência do acordo Mercosul e União
Europeia?
Márcio Elias Rosa: Vejo com enorme otimismo. Acho que você não pode não
considerar um enorme avanço um mercado cujo PIB seja de US$ 22 trilhões e 720
milhões de pessoas. É gigantesco, então é impossível não ter um efeito positivo.
No dia 1º [de maio], 5 mil linhas tarifárias [produtos] da Europa sofrerão
desgravação, ou seja, serão reduzidas. Do lado do Mercosul, 1,1 mil. Isso significa
que 54% das linhas tarifárias europeias caíram de imediato. Para o Mercosul, 89%
das linhas tarifárias serão reduzidas em três, cinco, sete anos, ao longo do tempo.
Esperamos aumento de 2,65% nas exportações brasileiras. Combinando os
acordos União Europeia, Efta e Singapura, o aumento chega a R$ 67 bilhões.
Valor: Os produtores do Mercosul podem ficar vulneráveis diante da concorrência
europeia?
Elias Rosa: Não, porque aqui fizemos uma abertura protegida, seja nos prazos
de redução de tarifas, seja na exclusão. A gente excluiu tudo que era sensível,
como o SUS, por exemplo. A empresa que quiser fornecer para o SUS só terá
preferência [tarifária] se estiver instalada no país. No setor automotivo, a
desgravação pode chegar a 30 anos se houver incorporação de nova tecnologia.
Então, é um acordo bastante equilibrado e não nos torna mais vulneráveis do que
já somos.
Valor: A exportação de produtos agrícolas, como carnes, será regulada por cotas
que precisarão ser compartilhadas entre os sócios do Mercosul. Haverá uma divisão
ou a cota ficará com quem chegar primeiro?
Elias Rosa: Se não tiver um acordo, vai ser de quem chegar primeiro. Mas nós
estamos nessa fase de negociação dentro do bloco. Então, a partir deste dia 1º
de maio, quem desembaraçar primeiro leva. Eu acho que neste ano nós vamos
ficar neste período de ajuste, de acomodação. É óbvio que no caso de proteína,
carne resfriada e carne congelada, o Brasil tem muito mais do que todos. Então,
vai chegar primeiro.
Os Estados Unidos foram o primeiro parceiro comercial do Brasil em todo o
século passado; não dá para prescindir do diálogo com eles”
Valor: A negociação do acordo foi dada como concluída em 2018. Mas os europeus
enviaram condições adicionais relacionadas à preservação ambiental e o Mercosul
aproveitou para renegociar pontos. Quais foram os principais avanços nessa etapa
final?
Elias Rosa: Fizemos uma nova oferta, chamada Rodada de Brasília, e
conseguimos melhorar muito o acordo. Conseguimos incluir regras novas para
transferência de tecnologia, compras governamentais, sustentabilidade, proteção
de micro e pequenas empresas, regiões geográficas.
Valor: Foi incluído também mecanismo de reequilíbrio do acordo, caso legislações
posteriores venham a reduzir vantagens pactuadas. O Brasil vai acionar esse
mecanismo, diante da taxação adicional que a Europa instituiu, baseada na
emissão de gases do efeito estufa?
Elias Rosa: O CBAM (Mecanismo de Ajuste de Fronteira de Carbono, na sigla em
inglês) começou em 1º de janeiro. Na viagem que o presidente Lula fez à Espanha
e à Alemanha, e pediu apoio aos dois países para que esse sistema seja revisto e
que os bancos de dados e os mecanismos de controle do Brasil e do Mercosul
sejam admitidos lá. Senão, vai gerar uma assimetria no tratamento. Nós não
resolvemos o problema ainda, mas esperamos resolvê-lo diplomaticamente.
Valor: Como está o apoio ao setor privado para que se beneficie das oportunidades
abertas com o acordo?
Elias Rosa: Nós estamos estruturando um programa interessante com o apoio
da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos),
BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e ABDI
(Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial). Nosso desejo é estabelecer
interlocução com todos os setores produtivos. O Mdic vai coordenar esse
trabalho. O setor produtivo precisa se apropriar do acordo. E nós também
precisamos identificar e apontar quais as oportunidades que são geradas. É
possível identificar o que a Europa compra de outro fornecedor, que não do
Brasil, mas que o Brasil produz. Precisamos concorrer nesse mercado, porque
agora temos maiores vantagens competitivas [menores tarifas de importação]. O
presidente Lula nos pediu para vincularmos o acordo à NIB.
Valor: Como funcionaria?
Elias Rosa: Eu pego lá as seis missões da NIB, por exemplo, o complexo industrial
da saúde, e conecto com o acordo. O que o Brasil já produz nessas cadeias
produtivas, levar para a União Europeia. Isso é diversificação do mercado.
Valor: E a negociação do acordo Mercosul-Canadá?
Elias Rosa: A última rodada, que foi agora, em Brasília, avançou bastante. Eu acho
que tem mais de 70% negociado e com muita convergência. É possível concluir
até o final do ano.
Valor: Os Estados Unidos prosseguem com a investigação contra o Brasil com base
na Seção 301 da Lei de Comércio. Como está o diálogo com eles?
Elias Rosa: Estamos bem. Se levarmos em conta como começou [com o tarifaço]
e onde estamos hoje, está ótimo.
Valor: Mas estamos vendo as nuvens escuras se aproximando, pois pode haver
decisão em breve sobre a investigação, e isso pode trazer restrição ao comércio. Há
quem fale em um novo tarifaço.
Elias Rosa: Essa espada que se coloca usando essas seções não é coisa nova. Já
acontece com a metalurgia. Acontece desde 2017, quando houve um acordo
envolvendo o aço e o alumínio (os EUA elevaram a taxação, depois foram
negociadas cotas). A gente não precisa encarar isso como uma adversidade
inesperada ou uma deslealdade. Eu acho que faz parte do jogo. É o “modus
operandi”. Eu fico animado porque nós estivemos lá recentemente, naquelas
consultas que eles fizeram. Muito embora exista a contrariedade daquilo que eles
nos perguntam e aquilo que a gente afirma, nós pudemos prestar contas
amplamente. Todo o setor produtivo está preocupado em levar para o governo
americano a realidade: não há risco de desmatamento, não tem nenhuma
adversidade na questão da economia digital (dois motivos que podem embasar
a imposição de tarifas a produtos brasileiros). Podemos nos manter otimistas.
Valor: Por quê?
Elias Rosa: Porque o diálogo político do presidente Lula com o presidente Trump
só nos trouxe coisa boa. Não é isso? Na verdade, houve acordo (no tarifaço). Que,
nesse caso, foi o recuo da parte deles, o reconhecimento de que a pretensão do
Brasil era legítima. Isso tem acontecido passo a passo, e acho que vai acontecer
de novo tantas vezes quantas forem necessárias. O presidente Lula já pediu uma
audiência.
A terra é rara, mas tem dono, o povo brasileiro; não podemos administrar isso
sem levar em conta a relevância estratégica”
Valor: Para aquela bilateral que não aconteceu?
Elias Rosa: Sim, veio a guerra do Irã e tudo ficou adiado.
Valor: Essa reunião ainda nos interessa?
Elias Rosa: Sim. Os Estados Unidos foram o primeiro parceiro comercial do Brasil
durante todo o século passado. Não dá para prescindir do diálogo com eles. Tem
muito interesse convergente, tem todo um setor produtivo instalado aqui.
Precisamos superar essa fase de indefinição para que também o setor produtivo,
a economia, tenha segurança jurídica, previsibilidade. Senão a gente vai acabar
afugentando investidores americanos no Brasil.
Valor: O sr. afirmou que o acordo do Estado de Goiás com os Estados Unidos não
tem base constitucional. Isso afeta a venda daquela mina em Minuaçu para uma
empresa americana?
Elias Rosa: O Estado de Goiás firmou um memorando de entendimento com o
encarregado de negócios dos Estados Unidos [Gabriel Escobar] estabelecendo
cooperação. Fez isso com base em uma lei estadual que é inconstitucional. Quem
estabelece, quem regula e autoriza, pesquisa ou lavra é a União. E quem legisla
sobre isso é a União, é o Congresso Nacional. Então esse memorando é um nada
jurídico. Mas é uma coisa separada do investimento privado na mina.
Valor: Esse investimento parece contrário ao que o presidente Lula tem defendido,
que é não exportar minérios e sim estimular o refino aqui.
Elias Rosa: Estou aguardando o nosso Ministério de Minas e Energia se
posicionar ou dar alguma indicação.
Valor: O governo pode de alguma maneira se posicionar contra esse negócio?
Elias Rosa: Eu acho que pode. Eu não descarto a hipótese de ser questionado.
Nós estamos em face de algo absolutamente estratégico. Eu falo que a terra é
rara, mas tem dono, e é o povo brasileiro. Então, nós não podemos administrar
isso sem levar em conta a relevância estratégica. Quando a gente fala de mineral
crítico, estratégico ou de terra rara, nós estamos falando de insumos
absolutamente essenciais na nova indústria do mundo. Então, não dá para não
ter uma política definida para isso, ou admitir que vire matéria-prima para
exportação, apenas e tão somente.
Valor: O deputado Arnaldo Jardim relata um projeto de lei que vai regular essa
política de minerais críticos e estratégicos. Ele aguarda contribuições do governo.
Qual a posição do Mdic?
Elias Rosa: A nossa posição para esse tema é sempre buscando a industrialização.
Se não toda ela, ao menos uma parte.
Valor: Ouvimos que a contribuição do governo não conteria a criação de uma
estatal, a Terrabras, mas teria itens de controle de investimento estrangeiro, de
exportação, exigência de industrialização local. É essa a linha que vão seguir no
projeto?
Elias Rosa: Isso.
Valor: Mas isso não vai afastar investimentos ou atrasar o desenvolvimento do
setor?
Elias Rosa: O que atrasa o desenvolvimento do setor é admitir que se pode
exportar matéria-prima e que nós não vamos industrializar. Qual vai ser o
interesse de uma indústria chinesa de se instalar no país para fazer uma parte do
beneficiamento da extração, da lavra e depois do beneficiamento, se o minério
pode ser simplesmente exportado e produzido lá?
Valor: O deputado Arnaldo Jardim propôs alguns incentivos fiscais no relatório
preliminar. Vocês vão sugerir algo nessa linha?
Elias Rosa: Dentro do universo de discussão que a gente tem estabelecido,
qualquer regime especial de crédito tributário, isenção ou regime especial deve
ser proporcional ao adensamento da cadeia. Quanto maior a etapa, quanto mais
ele avança na industrialização, maior o benefício ele pode colher.
Valor: Pode detalhar mais?
Elias Rosa: É um sistema muito parecido com o Mover. O Mdic está usando muito
o programa de mobilidade verde do setor automotivo, porque deu muito
resultado. Ele não concede isenções, e sim crédito tributário, na medida que se
agrega valor.
Valor: E qual seria o impacto fiscal?
Elias Rosa: Eu não sei qual o impacto fiscal, não sei dizer. Se você não gerar algum
tipo de vantagem tributária, você não tem regime especial. E aí não tem sentido.
Valor: Precisa de um regime especial para desenvolver esse setor?
Elias Rosa: Precisa de um regime especial. Como precisa para os datacenters, que
é o Redata, como precisa para a ZPE (Zona de Processamento de Exportação),
para a indústria química. Mas é preciso saber que não se concedem os benefícios
de maneira meramente homologatória. Por exemplo: eu tenho um alvará e isso
já me dá vantagens e benefícios. Isso não pode. É preciso que a empresa, tendo
o alvará para exploração, apresente um projeto de investimento no país. E a partir
do projeto habilitado no programa, vai ou não ter vantagens tributárias. Então,
teria necessariamente que ter uma fase de habilitação desse investimento.
Valor: O programa de datacenters era a grande expectativa de agenda do Mdic
para 2026. Não tem como mais ser aprovado este ano?
Elias Rosa: Há uma pressão grande do setor privado para o regime, não é só do
governo. E eu já disse publicamente que nós vamos dialogar com o Senado para
tentar retomar. Acho que é importante.
Valor: Sobre a revogação da “taxa das blusinhas”, já há uma definição? Seria uma
revogação total ou uma redução na alíquota?
Elias Rosa: O Mdic é favorável à taxação. A nossa posição é de manutenção, para
corrigir uma assimetria que existe entre o varejo brasileiro e a indústria têxtil,
calçadista, a indústria da moda. E essa discussão não está atrelada ao calendário
eleitoral. Os mesmos atores favoráveis e contrários estão aí, o tempo todo falando
sobre isso. É que aumentou a pressão para a discussão do tema. E dentro do
governo tem muitas opiniões, opinião favorável, opinião contrária, sempre
tiveram. Mas não tem uma orientação ainda, diferentemente da redução da
jornada 6x1.